Junho 2003

R&L - Laicidade e Constituição Europeia

Arquivado em: R&L/Comunicados, União Europeia.

LAICIDADE E CONSTITUIÇÃO EUROPEIA

1. A Associação República e Laicidade protesta contra a posição assumida pelo Primeiro Ministro português Durão Barroso na conferência intergovernamental de Salónica, a 20 de Junho de 2003 de defesa da necessidade de uma referência à “herança cultural cristã” no Preâmbulo da Constituição Europeia. Efectivamente, tal referência só poderia causar divisões e conflitos entre os cidadãos de uma Europa que se pretende coesa e imune às guerras de religião que a dilaceraram durante séculos.

2. Ao justificar-se afirmando que o cristianismo foi “[uma] contribuição essencial para a identidade europeia”, o Primeiro Ministro esconde deliberadamente que uma tal disposição no Preâmbulo constitucional impossibilitaria a identificação com a União Europeia quer aos cidadãos que seguem religiões não cristãs, quer àqueles cidadãos que não se identificam com qualquer confissão religiosa, quer aos países sem tradição cristã além do risco de agravar um clima internacional já com aspectos de “guerra religiosa”.

3. O referido posicionamento de Durão Barroso durante a cimeira de Salónica é tanto mais lamentável quanto foi assumido em representação de um Estado que consigna na sua Constituição a separação entre o Estado e as Igrejas ou comunidades religiosas (artigo 41º da CRP), e lança graves dúvidas sobre o apego do Primeiro Ministro ao referido preceito constitucional.

4. A Associação República e Laicidade reafirma que apenas uma Constituição Europeia que institua a Laicidade como um dos seus princípios fundamentais a par da Democracia, do Estado de Direito e do respeito pelos Direitos do Homem poderá unir os cidadãos de uma Europa aberta, inclusiva, socialmente cada vez mais secularizada e religiosamente cada vez mais diversa. Nesse sentido, é nosso dever chamar a atenção para o artigo I-51º da Constituição Europeia, que põe em causa a indispensável separação entre as Igrejas e a União Europeia -e cuja importância tem sido ofuscada pelo debate sobre um Preâmbulo que, em última análise, é desnecessário.

Pela Direcção,

Ricardo Gaio Alves (Secretário da Direcção) Luis Mateus (Presidente da Direcção)

Lisboa, 24 de Junho de 2003

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R&L - Fórum Social Português: Participação e Representação

Arquivado em: R&L/Comunicados.

FÓRUM SOCIAL PORTUGUÊS PARTICIPAÇÃO E REPRESENTAÇÃO

A associação cívica REPÚBLICA e LAICIDADE participou no Fórum Social Português sem contudo subscrever a “Declaração da Assembleia de Movimentos Sociais”, nem integrar a manifestação que se lhe seguiu por entender que:

  • A Democracia não se pode circunscrever à actividade e intervenção nos/dos partidos políticos e deve encontrar e multiplicar formas complementares que não alternativas de participação cívica dos cidadãos;
  • O associativismo cívico é seguramente uma das modalidades mais fecundas de enriquecimento da vivência democrática;
  • Um fórum de associações cívicas constitui sempre uma boa oportunidade para apresentação e divulgação das ideias e posições defendidas por diferentes grupos de cidadãos e tanto mais quanto as suas perspectivas sejam (ainda) social e culturalmente consideradas como “politicamente incorrectas” ou mesmo marginais.

Contudo, no seguimento daquele evento e com a legitimidade - e a responsabilidade - que lhe advém do facto de nele ter participado designadamente com uma “oficina” de discussão , cabe à Associação República e Laicidade vir aqui chamar a atenção para os seguintes factos:

  • Apesar de ter sido claramente assumida pela organização do encontro (cf. “Declaração de Coimbra”) que ninguém poderia, a qualquer título, tomar posições em nome do Fórum Social Português, a verdade é que, objectivamente e designadamente junto da comunicação social , houve um grupo muito restrito (fechado?) de “figuras” que, sem qualquer legitimidade, apareceram sistematicamente a tecer considerações sobre aquele evento “sobre”, que não “em nome de”… mas quantos darão pela subtileza?!;
  • Uma dessas “individualidades” foi o cidadão Boaventura Sousa Santos que, por entre outras apreciações mais ou menos discutíveis acerca do sistema de Democracia representativa, se permitiu afirmar que “se o voto mudasse alguma coisa já tinha sido proibido”… (cf. Diário de Notícias de 10-06-2003) Defensora do regime republicano, dos princípios que o sustentam e do sistema democrático representativo em que ele também assenta, a Associação República e Laicidade não pode deixar de reagir a uma tal afirmação que, na sua perspectiva, só pode ser entendida como um grave ataque ao sistema insubstituível da expressão democrática da vontade dos cidadãos através do voto individual, livre e secreto.

A Democracia Representativa tem, sem dúvida alguma, muitos problemas e limitações, mas a Associação República e Laicidade persiste em sustentar que, com todos os seus defeitos, a Democracia Representativa continua a ser o único sistema institucional que, pelas correcções e acertos que aceita, permite um efectivo caminho para a liberdade e a igualdade republicana entre os cidadãos.

Luis MATEUS (Presidente da Direcção)

12-6-2003

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