A Educação Congreganista

Beatriz Pinheiro

«Frades não podem educar cidadãos; freiras não podem educar mães de família»: e, todavia, é a frades e a freiras, é às congregações, numa palavra, que está actualmente confiada a instrução da mocidade: e então, sobretudo, a da mocidade feminina, à míngua de liceus e de colégios seculares, fizeram-na elas – as congregações – seu monopólio exclusivo. É o cúmulo do absurdo; todos quanto pensam, assim o entendem: todavia o absurdo persiste.

Precisamos de homens de pensamento e de acção: e vai o país e confia os futuros cidadãos a homens que se fizeram escravos do dogma e da obediência. Precisamos de homens que acima de tudo prezem a pátria e a liberdade; e vai o país e confia os futuros cidadãos a homens que fazem gala de não ter pátria e cobrem de insultos e anátemas a liberdade e os raros que a defendem. Precisamos finalmente de homens que tenham por norma a razão bem orientada e por objectivo da sua actividade o progresso e o bem da humanidade: e quem os há de preparar para bem se desempenharem de tão generosa missão, hão-de ser homens enfronhados em velhas teologias e que apenas procuram, e a todo o custo e por todos os meios, o bem da sua ordem e nada mais!

O resultado de tudo isto está-se a ver. Esta educação anacrónica é incapaz, nem podia deixar de o ser, de preparar o homem para a compreensão dos grandes ideais modernos, futuro glorioso, quando tornado realidade, das sociedades que bem os compreenderem e até eles se souberem elevar. A mocidade, educada assim, converte-se, ao sair desses colégios, num bando de cépticos e de egoístas: cépticos, porque, uma vez desempoeirados cá fora de todas as velhas crenças e de todos os velhos e absurdos prejuízos, nada no cérebro encontram, nem muito menos no coração, que vantajosamente lhe substituam; egoístas, ferozes egoístas, porque, neste ponto ao menos, seguindo o exemplo dos seus educadores e mestres – tudo para bem e engrandecimento da ordem – eles apenas de si cuidam, de si e do deu próprio engrandecimento, indiferentes a tudo o mais, por princípio e por cálculo propositadamente se desinteressando do que não lhes diga respeito, do que lhes não traga lucro, afivelando nos lábios um riso escarninho para tudo isso que eles classificam de flores de retórica – progresso da pátria, bem de todos, engrandecimento social…

E se isto é assim quanto aos rapazes confiados ao ensino dos frades, o que não será das raparigas confiadas à direcção das irmãs?!…

O que é preciso que elas aprendam e se habituem a ser? boas filhas, não é verdade? E hão-de ser mulheres que abandonaram pai e mãe, por vezes, além de pobres, velhos e enfermos, e irmãos, muitas vezes carecidos de todos os seus cuidados, hão-de ser mulheres assim quem vá inocular na alma dessas crianças o santo amor da família – amor que muitas vezes é preciso que chegue, e deve chegar até ao máximo sacrifício?! Queremo-las de futuro boas esposas e boas mães, não é verdade? As freiras consideraram sempre o casamento um mal menor, apenas, um mal indispensável, um pecado que foi, e que só deixou de ser pecado porque Cristo o ergueu à dignidade de sacramento: mas no caminho da perfeição, um obstáculo; na pureza da vida espiritual, uma mancha; aos olhos de Deus, como aos seus olhos, uma inferioridade, uma animalidade. Assim o consideram: isto dizem, isto ensinam.

As consequências são óbvias. As crianças, chegadas à adolescência, vêm dos colégios com estas ideias; nem por isso se tornam refractárias ao casamento, por via de regra, não. Meteram-lhes medo com ele e por isso ele mais as atrai. Casam, pois. Por amor? poucas vezes; pela atracção do perigo, pela tentação do desconhecido; por um desejo de mudança; às vezes por um simples capricho de vaidade: – para que se não julgue que ninguém as pretende; quando não é simplesmente por uma questão de conveniência: – para terem quem lhes pague vestidos caros e as leve a bailes, a teatros, etc.; as mais modestas para serem pelo menos senhoras suas, independentes da autoridade dos pais…

Inaugurada assim a vida de família, ao primeiro desgosto que o casamento lhes traga, ao primeiro sacrifício a que o casamento as obrigue – os primeiros sintomas da maternidade, muitas vezes – ei-las abatidas e ao mesmo tempo revoltadas; ei-las então regressadas às ideias do colégio, às ideias que as irmãs lá dentro lhes insuflaram… «O casamento, este horror! bem diziam elas!» E desiludidas, e arrependidas agora, qual o remédio para muitas? Correr à igreja e recorrer ao director espiritual. E aí temos nossa mulher, rainha do lar, como eles a chamam, governada pelo confessor; sacerdotisa do lar, mas o jesuíta oficiando e ela acolitando apenas, que é como eles a querem. O marido… mas que tem o marido com isso? Os filhos?… mas não lhes ensinaram que acima de tudo estava a salvação da sua alma?! Os filhos são um estorvo no caminho da salvação: – os filhos; e os pais; e os maridos; e todos os laços de família, em suma: – «se queres ganhar a salvação deixa teu pai, tua mãe, teu marido, teus filhos, e segue-me». Palavras estas de Cristo que eles e elas lá interpretaram ao sabor das suas conveniências, como de resto a muitas outras, tornando-as, depois de assim deturpadas, um instrumento terrível, na sua mão, de desamor, de ingratidão, de discórdia e de crueldade.

O resultado, ao fim de tudo, é isto: a aviltação cada vez maior dos caracteres; uma decadência, uma derrocada assombrosa em toda a linha, sem um protesto quase, coerentes com a educação recebida, fiéis à divisa dos mestres: – como um cadáver; como um bordão na mão do caminheiro. Somos assim um povo, na sua grandíssima maioria, de ignorantes; no resto, de indiferentes: soberbo filão para explorar: e por mal nosso é o que nos fazem. E nem somos já capazes dum protesto que vibre com a energia indomável que traz a certeza da vitória. Não temos opinião, nem temos iniciativa; precisamos todos de quem nos dirija; e, atribuindo todos os males aos governos, dos governos, apesar de tudo, é que esperamos remédio para todos os males.

Ensinaram-nos a esperar tudo da Divina Providência: estamos sempre à espera do milagre. Parecemo-nos com aquele homem, que, vendo aproximar-se a hora da partida e o criado sem o vir acordar, apertava as mãos na cabeça, de aflito pelo risco iminente de perder o comboio. E perdemo-lo, quer dizer: e perdemo-nos. É que o fatalismo de raça complicou-se com o fatalismo da educação: seja o que Deus quiser… E devorados por um pessimismo mórbido, vamo-nos deixando ficar sem um protesto, – quando muito, em alguns, uma indignação surda que não chega a transbordar, – a seguir o desfile, a ver a marcha triunfante dos que nos governam, dos que sobre nós exercem uma tutela absoluta e humilhante, frades, jesuítas e… políticos, todos eles seguindo unidos, arvorando a tão conhecida divisa: todos os meios são bons para se conseguirem os fins. E como os fins de todos eles, dos políticos como das congregações, é engrandecerem-se, é enriquecerem-se, é monopolizarem todo o poder, daí, na nossa política, toda essa desenfreada sarabanda de subornos, de prepotências, deserções, cobardias e infâmias, que cada vez nos vêm enterrando mais fundo na lama em que só eles exultam, porque conseguiram os seus fins – à custa desses meios que são óptimos… Óptimos: pois, porque não, se os coroou o êxito? pois, porque não, se todos eles os empregam? É ver como alguém que fazê-lo não possa, disso se lamenta como de uma desgraça, e todos os outros a batê-lo logo desapiedadamente – porque não teve talento, porque não teve arte, porque não teve habilidade. E assim é que todos nós, o povo, o país, a parte sã do país, está à mercê dos medíocres, dos habilidosos, dos exploradores, que, nisso ao menos, por nosso mal, mostram ter aprendido bem as lições que receberam.

E nesta hora extraordinária de vida e de revolta para o nosso povo, até aqui quase adormecido na sua proverbial indiferença, como dói ouvir dizer ainda a homens ilustrados – que ergueram alto, muito alto, o seu protesto – como dói ouvir-lhes dizer que… que o ensino ministrado nas congregações, para os homens não serve; mas serve para as mulheres: para as mulheres é bom, porque não há inconveniente em que elas recebam uma educação moral e religiosa! Pode haver maior absurdo?! Que orientação ou que desorientação é esta?! Mas, se as congregações dão uma verdadeira educação moral e mesmo uma verdadeira educação religiosa – nada de hesitações – vamos já todos mandar-lhes para lá as nossas filhas, e também (nem eu sei se diga: e principalmente…) os nossos filhos, porque da falta de moral, de verdadeira e alta moral, que não admita sofismas, nem só a aparências se limite, é do que nós todos mais padecemos: essa a origem, não única, mas certamente primordial, de todos quantos males nos afligem nesta hora triste da nossa lenta mas tremendíssima agonia.

Pois, sendo os dois sexos destinados a viver em comum, a influir e a reagir desde a primeira à última hora da vida um no outro, como é isto de um precisar de moral e outro a dispensar? de para um ser boa a religião e para outro não o ser? E sendo assim, sendo boa para as mulheres a educação das congregações, para que são então todos estes protestos, todos estes gritos?! Que fiquem; deixemo-las ficar: façamos mais, entreguemos-lhe as nossas filhas, para que continuem a fazer delas a mulher que nós para aí vemos, que nós para aí admiramos. Os rapazes, se o mal está só na educação dos rapazes, retiremo-los da sua direcção muito embora; vamos mandá-los aos liceus e aos colégios seculares que por aí há já e aos outros que por certo hão-de aparecer, desde que não lhes falte quem os frequente.

Não é por terem nas suas mãos a educação da mocidade, mas apenas por terem nas suas mãos a beneficência?

Pois então não é ela sempre bem-vinda, venha de onde vier e seja com que intenção for?

Por um ou outro rapaz que seja levado pelos jesuítas a seguir a vida religiosa?

Não vejo também que isso constitua motivo para meio mundo se incomodar…

Mas então porquê?!…

Estranho prestígio o da tradição, o da rotina!

Como é que ainda agora, no princípio do século XX, espíritos ilustrados não compreendem, não querem compreender que, para acabar de uma vez para sempre com este eterno conflito que traz os dois sexos divididos, o homem e a mulher pugnando por interesses e ideais diferentes, diametralmente opostos, o único recurso, o único meio, é educá-los a ambos segundo o mesmo plano, segundo as mesmas vistas, de modo que depois, na vida, não siga cada um para seu lado, um não destrua o que o outro edifique, e pelo contrário, ambos sigam unidos e confiados no caminho do progresso, em demanda da harmonia na família, da harmonia na sociedade, da harmonia na humanidade?!

Ou serão isto apenas, mesmo para os espíritos ilustrados, mesmo para os espíritos liberais, também simples flores de retórica, simples palavras sem significação, palavras e nada mais também?…


Beatriz Pinheiro

(artigo publicado no nº 16, 1910, de A Mulher e a Criança – revista da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; transcrição de Alexandre Andrade)