R&L no Colóquio “A Religião fora dos Templos”

A RELIGIÃO FORA DOS TEMPLOS

A mesa redonda «Religião e Educação», integrada no 2º colóquio «A religião fora dos templos», organizado pela Comissão de Liberdade Religiosa, foi marcada por um documento de Esther Mucznick intitulado «A religião nos manuais escolares».

A generalidade das intervenções, tanto da mesa como do público, foram no sentido de apoiar a linha de actuação proposta por Mucznick, e que passa por, numa primeira fase, reivindicar a criação de uma comissão junto do Ministério da Educação dominada por religiosos e que zele pela correcção religiosa dos manuais escolares; numa segunda fase, pela inserção no currículo escolar de uma disciplina multi-religiosa obrigatória.

Desde o início da existência da Comissão de Liberdade Religiosa, criada pela Lei da Liberdade Religiosa (Lei 16/2001), que a Associação República e Laicidade exprimiu a sua apreensão pela composição deste organismo estatal e pelo papel que poderia vir a desempenhar. Essa apreensão revela-se, infelizmente, cada vez mais justificada.

Se a actual Comissão de Liberdade Religiosa levasse avante as propostas apresentadas por Esther Mucznick, os estragos feitos à laicidade da escola pública e à difusão da ciência em Portugal seriam tremendos e duradouros.

1. Sob os pretextos, assumidos por Esther Mucznick, de combater o carácter que ela entende «excessivamente laicista» dos manuais escolares, e de garantir que os manuais escolares não ofendem a religião judaica por acção ou omissão, a comissão atribuiria a grupos confessionais a possibilidade efectiva de rever os programas escolares e de decidir sobre o que pode ou não ser ensinado em matéria religiosa (e não só) na escola pública, ferindo decisivamente a liberdade de ensino e a não confessionalidade da escola pública.

2. Mais grave ainda seria a «inserção no currículo escolar do estudo obrigatório das grandes religiões e doutrinas religiosas», que atingiria a liberdade de consciência dos alunos, e o direito dos pais a educarem os filhos segundo as suas convicções em matéria religiosa.

3. Finalmente, é preocupante que o deputado Vera Jardim tenha manifestado a sua abertura à correcção religiosamente orientada dos currículos, e é gravíssimo que esteja disponível para aceitá-la mesmo no caso, levantado por um elemento do público, do ensino da teoria religiosa da «criação cristã do mundo e da vida» a par da teoria científica da evolução. A escola pública não pode ser, de forma alguma, o local para a transmissão de teorias obscurantistas.

A Associação República e Laicidade reafirma que a própria existência da Comissão de Liberdade Religiosa, com a orientação actual, é um perigo para a laicidade do Estado e para a difusão do conhecimento científico em Portugal, e lamenta a complacência que a postura anti-laicista e a propaganda anti-ciência encontram no referido elemento do partido no governo.

Ricardo Alves 

9 Comments

  • Teresa wrote:

    http://www.dgrn.mj.pt/legislacao/liberd_relig.asp

    A mim parece-me que está a haver tentativa de violação da dita Lei… e mais uma vez com a conivência e permissividade de elementos do governo, supostamente representantes/defensores da República e da Democracia Portuguesa.
    Mas talvez alguém mais entendido em Leis (e sua interpretação) que eu, saiba descobrir/explicar, através de que malha ou buraco, está esses grupo de pessoas a tentar passar.

  • Teresa wrote:

    ‘Le but de l’intruction n’est pas de faire admirer aux hommes une législation toute faite mais de les rendre capables de l’apprecier et de la corriger’…’Mais une constitution vraiment libre , où toutes les classes de la société jouissent des mêmes droits, ne peut subsister si l’ignorance d’une partie des citoyens ne leur permet pas d’en connaître la nature et les limites, les oblige de prononcer sur ce qu’ils ne connaissent pas, de choisir quand ils ne peuvent juger’

    Condorcet, ‘Cinq mémoires sur l’instruction publique’

    Faço minhas as suas palavras…

  • Viva.

    Publiquei este artigo no seguinte link:

    http://webtekk.org/ateismos/?p=321

    Comprimentos,
    Bruno Resende

  • Viva.

    Ricardo, falaste em disciplina multi-religiosa obrigatória. Não compreendi qual é a base desta suposta disciplina. Uma disciplina que fale de todas as religiões? Uma disciplina que se desdobra em todas as religiões de forma aos formandos escolherem uma? Abordar as religiões na sua completa abrangência ou vincar o vírus cristão? Essa disciplina teria um contraposto ateísta?

    Não consigo imaginar um formando a sair de uma aula de ciências onde se expõem por exemplo que a terra tem 4,6 milhões de anos e depois entrar numa aula onde lhe dizem que a terra tem 6 mil anos.

    Qualquer coisa que possa ajudar digam. ;)

    Comprimentos,
    Bruno Resende

  • Caro Bruno Resende,
    a proposta da Esther Mucznick (e a que ninguém se parece opor na Comissão de Liberdade Religiosa), tem dois aspectos.

    1) Correcção religiosa dos manuais de disciplinas não religiosas.

    2) Criação de uma disciplina obrigatória em que se abordassem as «grandes religiões» (judaísmo, cristianismo, islão, eventualmente o hinduísmo e o budismo). Não falaram em incluir o ateísmo nesta disciplina, como é óbvio.

    Finalmente, deixe-me acrescentar que o cenário que refere («um formando a sair de uma aula de ciências onde se expõe por exemplo que a terra tem 4,6 milhões de anos e depois entrar numa aula onde lhe dizem que a terra tem 6 mil anos») já acontece. Na Educação Moral e Religiosa Evangélica ensina-se o criacionismo como se fosse um facto, e essa disciplina, embora opcional, existe no sistema público português.

    Cumprimentos, Ricardo Alves

  • Viva.

    Penso que pensar de boa “fé” poderia sugerir-me que essa disciplina fosse uma abordagem imparcial das religiões ou falta dela. Temas como a inquisição, cruzadas, combate aos infiéis, destruição de patrimónios da Humanidade por diversas religiões, etc…

    Caso disto se tratasse, clarividência e análise intelectualmente honesta, penso que que seria um enorme passo para atingir uma laicidade social, e para além disso fomentaria o ateísmo, agnosticismo, cepticismo, espiritualismo e até mesmo religiões como o budismo.

    Mas obviamente que não será provavelmente o caso…

    Conheço a disciplina opcional, frequentei-a e obtive sempre notas máximas. Também tenho a segunda comunhão. Ambas as coisas potenciaram o meu ateísmo. Mas cada caso é um caso…

    Religião contradiz em tudo o ensino. Lógica e ilógica num mesmo recipiente são perigosos…

    Comprimentos,
    Bruno Resende

  • Viva.

    Faz-me extrema confusão, agora que se falou nisso, a expressão de “Religião e Moral”. Se porventura existir uma disciplina em filosofia que estude por exemplo a genealogia da moral de Nietzsche, teriamos algo como “Ateísmo e Moral”. Se continuarmos a explorar a falta de honestidade intelectual, podemos um dia ter disciplinas a estudar o prepúcio de cristo e como couberam os dinossauros na jangada de Nóe. Ensino misturado com religião leva-nos ao analfabetismo intelectual, como no caso da teocracia America. 10% dos Americanos acreditam a esposa de Noé, o homenzinho da arca (Noe’s arc) é a Joana d’Arc.

    Comprimentos,
    Bruno Resende

  • David Cameira wrote:

    É q são sempre os mm/s ! …

    Mas esta é uma associação de laicistas ou de ateus ?!

  • Não, David Cameira…
    É o site dos fundamentalistas do futuro… quais ateus, quais laicistas, quais caparapuça! Meia dúzia de gatos pingados que querem ser importantes…aliás…como todo o bom republicano do início do séc XX em Portugal, estes querem utilazar o factor Fénix da forma drástica…

Deixar uma Resposta