«Quando festejar o natal é proibido»

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(carta publicada no jornal Público do dia 21/12.)

Caro senhor Director do Público,

Na edição de domingo (17/12) do seu jornal, o jornalista António Marujo publicou um texto («Quando festejar o Natal é proibido») que parece deliberadamente concebido para fomentar a ilusão de que existe uma campanha internacional para «proibir» alguns festejos cristãos desta época. A ilusão é construída juntando erros factuais, distorções e uma referência despropositada à Associação República e Laicidade.

No artigo citado, António Marujo afirma que «um inquérito feito em Novembro revelou que três empresários britânicos em cada quatro proibiram decorações alusivas ao Natal». Na realidade, o inquérito em causa perguntava «se admite banir decorações de Natal por se preocupar que possa ofender outras fés?», mas não perguntava se as referidas decorações foram efectivamente «proibidas», o que parece improvável que tenha acontecido. António Marujo alega também que uma escola de Saragoça «decidiu que este ano não haveria festas natalícias, para não incomodar as crianças de outras religiões». Porém, o director da referida escola afirma que não tem espaço nem físico nem horário para celebrações, e que foi essa a razão de não as realizar.

Finalmente − e deixando de lado o peru que não passou a frango e o pinheiro que não ficou acompanhado de candelabro hebraico, dois não-acontecimentos − António Marujo inclui a Associação República e Laicidade neste conjunto de situações inexactas e desconexas, afirmando que a nossa associação protestou «com a lembrança dos factos históricos que estão na origem do Natal». Na realidade, a ARL limitou-se a criticar no seu saite a omissão do Ministério da Educação quanto ao fomento de actividades lectivas, ligadas a esta quadra e isentas de carácter catequético.

O jornalista António Marujo sugere ainda que o «nascimento de Jesus» e o «anjo Gabriel» da referida peça teatral serão «factos históricos», o que nos parece muito arriscado do ponto de vista jornalístico.

Com os meus melhores cumprimentos, Ricardo Alves

acesso à carta publicada: arquivo/R&L (pdf)

One Comment

  • [...] Ao separar os cadernos do Público hoje de manhã à mesa do café, o primeiro título que me chamou a atenção estava no caderno Local e noticiava que uma figura de «Cristo» fora roubada, pela segunda vez, do presépio que se encontra num jardim de Faro. A câmara municipal, preocupada com a correcção religiosa do presépio, teme que não consiga repor a dita figura até dia 24. Pensei imediatamente: porque será que o católico militante António Marujo não juntou esta estória verídica aos pseudo-factos que coligiu no domingo passado, no seu afã para inventar uma «guerra ao Natal» que nem nos países anglo-saxónicos é real? Passei ao caderno principal, e descobri com pasmo que o Público dedicou as páginas dois e três à fantasmática «proibição do Natal», e que existem na edição de hoje deste jornal quatro artigos de opinião (incluindo o editorial) que se dedicam a combater denodadamente na «guerra pelo Natal». (Alguns deles retomam, como verdadeiros, pseudo-factos que a carta da Associação República e Laicidade ontem publicada refutara, numa demonstração do poder da «imprensa de referência» na criação de mitos urbanos.) Dado que a Associação é referida em dois artigos de opinião de hoje (e no próprio conteúdo noticioso), haverá a resposta devida no local próprio. Por enquanto, deixarei apenas, e a título pessoal, algumas precisões. Primeira: a insistência em usar o termo «proibição» sugere que houve um esforço estatal, através de legislação ou de regulamentos, para normatizar as situações referidas por António Marujo, e que em muitos casos (as «boas festas» que desejamos a outras pessoas, por exemplo) estão muito para além (felizmente!) dos poderes dos Estados democráticos. Seria conveniente, a bem da clareza da discussão, que se separasse o que é feito por livre iniciativa de indivíduos ou empresas, daquilo que corresponde a recomendações do Estado. Porque, e é isso que toda esta discussão demonstra, existe na Europa ocidental um movimento de secularização da sociedade (abandono da religião e das suas referências), que não é dirigido nem coordenado, mas ao qual terá que corresponder, cedo ou tarde, uma consentânea laicização do Estado (aprofundamento da neutralidade estatal em matéria religiosa, e do igual tratamento dos cidadãos). Por muito que custe aos conservadores, a queda na frequência das igrejas não é um fenómeno passageiro e terá necessariamente consequências (algumas das quais, perfeitamente espontâneas). Segunda precisão: os laicistas portugueses não têm, nunca tiveram, um discurso de defesa do «direito à diferença», pois temem, fundadamente, que descambe na diferença de direitos. Os laicistas defendem a igualdade de direitos de todos os cidadãos, quer sigam a religião que foi maioritária, quer sejam de uma religião minoritária ou quer não tenham religião de todo. Terceira: faço um apelo a que se deixe de usar expressões como «bem-pensante» ou «politicamente correcto» com sentido pejorativo. Pensar bem não é mau (penso eu… «bem» ou «mal»?), e cada um de nós defende aquilo que considera ética, social ou politicamente correcto, e combate ou denuncia o que considera incorrecto. Já vai sendo tempo de contar a verdade às crianças: o movimento «politicamente correcto» é uma lenda urbana, nunca existiu, pelo menos em Portugal. Finalmente, e quanto ao fundo da questão: qualquer «fascista por Cristo» que me queira obrigar a desejar «um santo natal» em vez de «boas festas» estará a exigir-me uma hipocrisia que recuso, e a interferir com a minha liberdade de expressão. Se há empresas que fazem essas exigências, provavelmente também as haverá que façam o contrário, e quem não gostar pode boicotá-las em conformidade. O que me importa discutir é o facto, real, de que na escola pública portuguesa existem tentativas recorrentes e documentadas de impôr a religião a crianças cujos pais têm o direito, inalienável, a que sejam educadas sem religião (tentativas que chegam a incluir «comunhões pascais» em horário lectivo e sem autorização dos encarregados de educação). Nessa esfera estatal, qualquer abuso é e será combatido pelos laicistas portugueses (já dentro de casa e dos templos, cada um faz o que quiser e que os seus aceitem). Quanto aos presépios que se encontram nas repartições públicas e nas praças, a verdade é que estão no meio da rua. E se põem a religião no meio da rua, não se queixem da chuva, do vento e das reacções de quem passa. [...]

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