Auto de Natal na Escola Pública

 

NA ESCOLA PÚBLICA, NATAL SEM PRESÉPIO… NÃO É NATAL !

 

A revista «Professores do 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico» (editorial EDIBA), no seu número de Dezembro, vem apoiar o trabalho dos professores daquele nível de ensino com a sugestão da realização de uma “Representação do Nascimento de Jesus”

 

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O Primeiro Acto da peçazinha reza assim:

(Maria, sentada numa cadeira, lê. De repente… aparece o Anjo Gabriel.)

Anjo Gabriel: Maria! 0 Senhor está contigo!

(Quando vê o Anjo, Maria surpreende-se.)

Anjo: Não tenhas medo, Maria, porque Deus te ama. Ficarás grávida e terás um filho ao qual darás o nome de Jesus. 0 mundo já não será igual e chamar-­lhe-ão Filho de Deus. Será Rei e o seu reinado não terminará nunca.

Maria: Como poderá acontecer tudo isso se já estou noiva de José?

Gabriel: 0 poder de Deus fará maravilhas.

Maria: Eu sou a escrava do Senhor; que se cumpra o que me disseste.

acesso ao texto integral da peça: arquivo/R&L (pdf)


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Analisando aquele texto com a distanciação cultural que hoje nos é (ainda) possível assumir, parece-nos acertado e oportuno perguntar aqui: quantos professores estarão habilitados para «trabalhar», para «analisar» e «aprofundar», com as crianças que têm sob a sua tutela pedagógica, as questões que aquele «simples» auto de natal pode facilmente suscitar?

A título de exemplo, deixamos aqui algumas perguntas que se nos afiguram tão difíceis quanto pertinentes: Que é «ficar grávida»? Como é que acontece a «gravidez»? Haverá três tipos de inseminação a «natural», a «artificial» e a «sobrenatural»? Que é «Deus»? Deus é «Rei»? Deus é «Pai Natal»? Que é ser «escrava do Senhor»? Como pode Maria gerar um filho de alguém que não é seu noivo? Trata-se de uma história de «barriga de aluguer»? Será um caso de partenogénese? etc.

Contudo, nesta «quadra festiva» com expressão quase planetária, celebrar a Paz e a Solidariedade entre os Homens, numa perspectiva claramente humanista e, portanto, universalmente partilhável –, constituiría, seguramente, uma interessante forma de se assinalar esta época do ano na salas de aula da nossa Escola Pública.

Mas onde existem incentivos que estimulem os professores a enveredar por tais caminhos? Onde estão as directivas e os documentos de apoio – os guiões de teatro, os vídeos, as letras e as músicas de canções, etc. – em que eles se possam estribar para avançar decididamente nessa via?

A verdade é que, tal como acontece com os crucifixos – ainda pendurados nas paredes das salas de aula de muitas escolas públicas à espera de pais que os contestem… –, relativamente à «quadra natalícia», o Ministério da Educação também se ausentou para parte incerta, consentindo que, ao arrepio da lei, no vazio de um normativo adequado e de um mínimo de documentação alternativa de apoio, continue bem viva e muito activa no espaço da Escola Pública uma cultura totalitária de matriz católica que persiste em «impor» o presépio às nossas crianças.

A este propósito, recorda-se aqui o repertório «Laicidade e Escola Pública»: arquivo/R&L (pdf) 

7 Comments

  • A falta de ética republicana é uma lacuna na formação dos professores.

    Aos editores da revista não vale a pena explicar-lhes a monstruosidade.
    Certamente não compreenderiam.

    O Estado é que deve zelar pelo cumprimento da Constituição e pela lei da liberdade religiosa.

  • João Palmeiro wrote:

    Mais uma singularidade da nossa República Laica….

  • Rodrigues da Costa wrote:

    5 erros: ‘rei’, ‘paz’, ‘solidadredade’ e ‘homens’ são com letra pequena; ‘Natal’ é com letra grande.
    Mas enfim! Uma sociedade «inclusiva»não há-de excluir os que se enganam…

  • aife wrote:

    Só os que se rejeitam por imporem os seus erros como verdades aos outros…

  • [...] Finalmente, o artigo termina citando a despropósito uma nota da Associação República e Laicidade em que se criticava principalmente a dificuldade do Ministério em fomentar actividades na escola pública, ligadas a esta quadra e isentas de carácter catequístico. António Marujo parece implicar que a peça teatral em questão, ao retratar o «anjo Gabriel» e o «nascimento de Jesus», está a referir-se a «factos históricos que estão na origem do Natal». Ignoramos qual a base factual que sustenta estas últimas alegações, muito arriscadas num contexto que se pretende noticioso. [...]

  • [...] Finalmente, o artigo termina citando a despropósito uma nota da Associação República e Laicidade em que se criticava principalmente a demissão do Ministério da Educação de fomentar actividades na escola pública, ligadas a esta quadra e isentas de carácter catequístico. António Marujo parece implicar que a peça teatral em questão, ao retratar o «anjo Gabriel» e o «nascimento de Jesus», está a referir-se a «factos históricos que estão na origem do Natal». Ignoramos qual a base factual que sustenta estas últimas alegações, muito arriscadas num contexto que se pretende noticioso. [...]

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